
Quando um ecrã entra na infância, o que acontece ao corpo, ao tempo e à relação?
- Psicomotricidade Para Todos Psicomotricista Carmen Sandu

- 1 de jan.
- 3 min de leitura
Há um momento silencioso em quase todas as casas.
Uma criança pequena, sentada no sofá, o corpo quieto demais para a idade, os olhos presos a um ecrã que muda rápido. O adulto suspira. Por instantes, há paz.
É quase sempre assim que começa. Não por descuido, nem por falta de amor, mas por necessidade. Cansaço. Falta de tempo. Um mundo que pede presença constante quando o corpo já não aguenta mais.
O problema é que o desenvolvimento infantil não acontece nesses instantes de silêncio. A infância constrói-se no movimento desajeitado, no chão, na repetição, no barulho, no olhar que responde. O cérebro da criança pequena organiza-se a partir do corpo, da relação, da experiência sensorial viva. Quando o ecrã entra cedo, não destrói nada por si só, mas ocupa um espaço que ainda estava destinado a ser preenchido por experiências fundamentais.
Rosário Carmona e Costa lembra-nos, no livro USER, que a infância precisa de tempo não acelerado, de frustração tolerável, de espera. O digital oferece o contrário: respostas imediatas a um cérebro que ainda está a aprender a perguntar.
À medida que a criança cresce, o ecrã muda de lugar. Já não é apenas um recurso para acalmar; passa a ser ferramenta educativa, promessa de aprendizagem precoce, aliado da escola. Vídeos que ensinam letras, jogos que estimulam o raciocínio, aplicações “adequadas à idade”. E, de facto, algumas ensinam. Mas aprender não é apenas reconhecer informação. Aprender é integrar, transferir, dar sentido. E isso continua a precisar do corpo, da emoção, do erro, da relação com o outro.
A ciência tem sido clara ao longo dos últimos anos: quando a experiência é excessivamente mediada por ecrãs, a aprendizagem tende a ficar mais superficial, menos transferível para o mundo real. Não porque as crianças sejam menos capazes, mas porque o cérebro adapta-se ao tipo de estímulo que recebe. Um estímulo rápido, altamente recompensador, constante, torna mais difícil sustentar a atenção quando o mundo exige paciência, esforço e continuidade.
Por volta da idade escolar, começam a surgir queixas que parecem desligadas do ecrã, mas que raramente o estão. Crianças inteligentes, curiosas, mas cansadas. Agitadas. Com pouca tolerância à frustração. Que desistem depressa quando a tarefa não dá prazer imediato. Aqui, o ecrã já não é apenas entretenimento; é um regulador externo, um fornecedor constante de estímulo.
Michael Desmurget fala disso de forma dura e provocadora em A Fábrica de Cretinos Digitais, não para atacar famílias, mas para chamar a atenção para o efeito cumulativo. Não é um episódio isolado, nem um fim de semana fora da rotina. É o dia após dia de experiências pobres em corpo, pobres em esforço cognitivo, pobres em relação profunda.
Na adolescência, o cenário transforma-se outra vez. O ecrã deixa de ser objeto; torna-se território. É lá que se pertence, que se compara, que se valida, que se foge. A relação com o corpo muda, o sono encurta, a ansiedade cresce. E não, o ecrã não cria sozinho o mal-estar adolescente. Mas quando ocupa o espaço que deveria ser da relação segura, do movimento, do silêncio, da construção de identidade, acaba por amplificar fragilidades que já lá estavam.
Talvez seja aqui que precisamos de abrandar o discurso e suavizar o julgamento. Não estamos perante pais irresponsáveis, nem crianças frágeis. Estamos perante um mundo que mudou mais depressa do que o desenvolvimento humano consegue acompanhar. Um mundo que oferece estímulo constante a cérebros que ainda estão a aprender a regular-se.
O exagero está em transformar o ecrã no grande vilão. O erro está em fingir que não há impacto nenhum.
A pergunta talvez não seja “quanto tempo de ecrã é demais?”, mas “o que está a faltar?”. Falta chão, falta movimento livre, falta tédio, falta relação sem mediação, falta tempo sem objetivo. Falta ao corpo oportunidades para organizar a mente.
Este não é um apelo ao desligar radical. É um convite a reequilibrar. A garantir que, antes do digital, houve corpo. Antes da estimulação, houve relação. Antes da rapidez, houve tempo.
Porque uma infância que cresce ligada ao corpo, ao outro e ao mundo real não fica menos preparada para o digital. Fica mais. Mais crítica. Mais autónoma. Mais inteira.
Talvez não precisemos de menos tecnologia.
Talvez precisemos, primeiro, de mais infância.
Psicomotricista,
Carmen Sandu





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